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Carlos Pinheiro
 
03.08
Curva da Saudade

Sempre que se correspondiam por bilhetes apaixonados, Saudade era escrita com S maiúsculo, mesmo que a palavra estivesse no meio de uma frase. Justificava que o amor que sentia pela namorada era tão intenso que só em pensar que poderia, um dia, sentir Saudade dela, sempre escreveria a poesia dolorosa com o tamanho do sentimento expresso na palavra. A estudante aplicada do Colégio Estadual de Caruaru sorria, mas ressalvava que logo terminariam o curso científico e ela iria estudar no Recife, já que Caruaru dispunha apenas de faculdades de Direito e Odontologia, e estas profissões não despertavam sua vocação. Carinhosamente, o estudante dizia ter nascido para amá-la, mas deixar Caruaru era tormenta que não podia, sequer, imaginar.

Caruaru deixava a economia rural ingressando no progresso do Parque Industrial, mas estudar era, ainda, ir para Recife, deixando amores, amigos e familiares. E a namoradinha determinada, "avançada", moderninha, partiu num trem, dilacerando corações apaixonados esmagados pelo gigante de ferro, de fumaça e apito rasgando Saudades.

Despediram-se na estação com ligeiro beijo, disfarçado, com os familiares da estudante olhando para outro lado permitindo aquela ousadia à luz do dia. O chefe do trem, qual carrasco implacável, tocou o sino anunciado iminente partida do monstro de ferro rumo ao Recife. Doloroso foi ouvir os grunhidos do cachorrinho ao ver a moça o apertando no peito, beijando-o na testa e lágrimas molhando seu belo rosto. Pelo alto falante da estação o postal sonoro da Difusora anunciava a partida do trem na voz do locutor Marco Pinheiro.

Na plataforma, também viajando à capital, o escritor Agnaldo Fagundes e o jornalista José Torres escoltavam o estudante Amauri Batista que, anos depois se tornaria renomado médico, conversavam indiferente a dor que os estudantes sentiam por se separem. Daí ouviu do escritor que existir a Curva da Saudade, ou corte do trem, que é o trecho ainda hoje existente, ali em frente à antiga Clínica do Dr. Rodolfo, na Praça Giacomo Mastroianni. É ali que o trem sumia aos olhos dos que ficavam, quando fazia a curva, deixando Saudades chorosas.

A histórica Curva da Saudade ainda hoje existe, menos o trem, o chefe da estação, o tilintar do sino, o cheiro colegial da namoradinha partindo, o vendedor de roletas de cana gritando: "Olhe o rolete! Pipoca! Picolé de duas cores! Alfenim! Rapadura batida! Quebra-queixo! Mata-fome! Cocada de coco ! Bolo de saia"…

E o trem partia, já bebido água na torneira gigante, a fumaça da caldeira embaçava olhos vermelhos de Saudade por quem partia, por quem ficava. E ficou!

Vê se pode?

 
 
 
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