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Carlos Pinheiro
 
13.07
Casas de Recursos

Cresceu ouvindo lamentos e críticas da mãe contra o pai, que fingia não ser com ele, os protestos da mulher indignada. Nunca se alterou. Ela falava, esbravejava e ele na maior paciência e tolerância, a interrompia com cinismo e carinho: "Meu amor, cadê meu leite?". E lá ia ela fazer o leite misturado ao toddy e ao açúcar com tanta raiva, que era possível ouvir à distância o tilintar da colher às bordas do copo, feito bêbado tocador de triângulo em trio pé de serra.

‘‘Você passa mais tempo nas casas de recursos, no Naite, do que na casa de tua família'', afirmava ela, com a convicção que o nordestino tem em misturar o tu com você.

Convém perceber que tudo que se fala à audição de criança cria em sua mente confusão na formação da razão e da imaginação, do tipo: "Tô chegando!'' Quando, na verdade, se está saindo e se despedindo com beijo. Por mais que a criança procure entender a diferença entre sair e chegar, ela não vai compreender. Assim, se gerou a confusão que Casa de Recursos parecia melhor e mais agradável que casa da família. O menino cresceu e, aos dezesseis anos, foi morar numa casa de recursos, sustentado pela cafetina e adorado pelas quengas.

Por absoluta falta do que fazer assistia televisão o dia todo, principalmente os canais da Câmara, do Senado e do Judiciário, o que forjou seu caráter na roubalheira, na falcatrua, na corrupção e na esperteza das apelações ou postergação da impunidade, e nem se indignou ao ver parlamentares criando lei de Abuso de Autoridade aonde transforma juízes e promotores em temeroso de julgar errado e acabar na cadeia sob o riso do infrator.

Disse: "É zona"! Na casa de recursos aonde habitava também tinha a operação lava-jato. Após as diversões noturnas no Teca Jacaré, as quengas lavavam os frequentadores usando água de uma quartinha de barro e, com sabão, as impurezas eram varridas para baixo da gonorreia do Gilmau após o Fux-fux com Lewanduisque. E, com convicção passou a afirmar que a justiça brasileira tornou-se verdadeira e promíscua Casa de Recursos jurídicos.

"Uma verdadeira zona"! Como se permitir a um condenado em terceira instância dar entrevista insultando o Juiz, o Ministério Público, o Ministro da Justiça e o Presidente da República? Como pode um juiz dar salvo conduto a senador condenado e prisioneiro domiciliar para que passe férias em Aruba e que, no dia seguinte, outro juiz casse a autorização? Só em casa suspeitosa.
Ou se restabelece à moralidade ou liberação total do Minha Casa de Recursos, Minha Vida, para todos.

Vê se pode?

 
 
 
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