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Carlos Pinheiro
 
06.07
Carne triada

Acordou com torcicolo, coisa normal após dançar o mês inteiro no Maior e Melhor São João de Caruaru em toda sua vida de forrozeiro. "Logo passa!", disse para si mesmo com satisfação pela diplomação de melhor dançarino de forró do ano.

Mas, a dor no pescoço não passou e já estava caminhando com a cabeça pendendo para um lado. Procurou o médico que foi logo prescrevendo analgésico com antiinflamatório e nem até logo se deu ao trabalho de balbuciar. Mas, o incômodo não passou e aí pagou consulta e teve pelo menos o olhar do médico que o radiografou, o tomografou, o virou de cabeça para baixo e atestou: Torcicolo.

Analgésico e antiinflamatório. Tudo culpa de um mês inteiro de xote e xaxado no Alto do Moura. Deu um tempo. Pensou em ser psicológico, quem sabe saudade do São João e deixou pra lá. Mas, a dor da gota serena não passou.

– Vá em casa de dona Mocinha, rezadeira no Xucuru, que ela cura na hora. – disse a tia encalhada, beata cristã, mas nunca se desprendendo da feitiçaria dos despachos para arrumar marido.

"Agora, deu. Um ateu acreditando em rezadeira? Não vou nunca!", pensou com descrença total ao que não é ciência. Mas, foi. Escondido, sem dizer a ninguém. Num domingo de sol frio, gostoso, do inverno no Agreste, pegou o carro e deslizou pela estrada de terra até o povoado de sua infância. Parou numa bodega ainda autêntica com um gato dos olhos azuis dormindo sobre saco de farinha, no balcão uma balança vermelha, um seixo sobre sacolas plásticas e no fundo prateleira com garrafas de cachaças antigas cobertas por poeira e teia de aranha. Tomou uma cachaça com um pedaço de charque como tira-gosto. Perguntado pela casa de dona Mocinha rezadeira foi informado da direção a para lá foi.

Casinha humilde, porém limpa e cercada por plantas venenosas. Quando ia bater palmas se anunciando ouviu a voz que veio lá de dentro:

"Se achegue na paz de Deus", destramelou a porta cerrada ao meio e entrou ouvindo o ranger da madeira sobre o chão batido em barro vermelho.

O sorriso da velhinha lhe deu estranha paz. Sentou-se num tamborete e quando ia dizer da dor, do incômodo que sentia, a doce mulher pegou um gainho de pinhão roxo e começou a rezar no local do pescoço que ele nem precisou apontar.

– "Carne triada. Nossa Senhora, mãe de Deus, desempene esse ziguezague com a benção de Jesus. Amém!" – e aconselhou: "Meu fi, quando fô dançá, num deite tanto o pescoço prum lado só não".

Ao deixar o casebre ouviu uma voz vinda do quarto com cortina de retalhos dizendo pra ficar, pois a noite tinha o "Lembrando São João". Ficou e dançou a noite toda com o pescoço escorado no lado oposto no rosto da morena linda, neta da rezadeira. A dor passou. Não se sabe por dançar desenvergando o pescoço ou se por força da reza da velhinha de cabelos brancos.

Vê se pode?

 
 
 
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