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Rita de Cássia Souza Tabosa Freitas é advogada e professora de Filosofia.
Rita Freitas
 
25.05
Idiota útil

Sim, sou uma idiota útil, segundo a fala do nosso Presidente. Idiota é uma palavra que vem do grego e etimologicamente significa "comum aos dois gêneros". No Brasil, essa palavra ganhou um ar pejorativo e passou a significar "dizer ou fazer bobagens", "possuir caráter simplório", "indivíduo destituído de inteligência", "néscio", "burro", "estúpido", "ignorante". Foi com esse sentido pejorativo largamente explicitado que o nosso Presidente classificou os manifestantes que defenderam o repensar do contingenciamento das universidades federais e institutos federais. Antes já havia acusado as universidades de serem promotoras da balbúrdia e da ideologia de esquerda.

Poderia até me sentir agredida com essa terminologia, mas vou transcender a ignorância do digníssimo representante do executivo legitimamente eleito e voltar ao grego clássico. Sou alguém que pensa para além do gênero pré-definido biológica e culturalmente, pois sou mulher, professora universitária de universidade pública, formada em Caruaru, doutora e mestre em universidades federais nordestinas. Sou mãe de uma menina, aluna de um instituto federal, graduanda em Engenharia Mecânica, que sofrerá diretamente com o contingenciamento feito pelo governo. Minha filha, assim como eu, não usa drogas, é bastante estudiosa, já foi bajeira, extensionista, monitora e participou de iniciação científica (interrompida por falta de dinheiro para a continuidade da pesquisa). Nós somos o retrato da maioria dos professores e alunos das universidades públicas nesse país.

Apresentando dados referentes ao ensino básico, para demonstrar a péssima qualidade da educação brasileira, o Ministro da Educação "esqueceu" de fazer referência a qualidade das universidades públicas. Mas esqueceu mesmo é de dizer que a educação básica é de cuidado dos municípios; o cuidado das universidades federais é federal, sendo constitucionalmente garantida a autonomia universitária. Contingenciar nesse momento, abruptamente, as verbas das universidades e institutos federais é uma violação dessa autonomia, que tem verba prevista no orçamento aprovado no ano anterior, não vinculada as oscilações da economia. Com um discurso retórico e sofístico e uma tentativa de classificar a luta pela educação superior e técnica como um "ato de idiotas úteis usados pela esquerda", há uma clara tentativa de polarizar uma luta que é do Brasil. Sim, nós podemos até ser idiotas úteis, mas o que dizer de um governante que diz isso do seu povo, em seu sentido mais pejorativo? Seria nosso Presidente um idiota inútil, no sentido néscio do termo?

 
 
 
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