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Rita de Cássia Souza Tabosa Freitas é advogada e professora de Filosofia.
Rita Freitas
 
23.02
O poder da verdade

É bastante interessante como as pessoas adoram citar o Evangelho de João para falar sobre a verdade. Como diz Comparato, política e religião continuam se confundindo como se fosse uma única face da mesma moeda. Parece que nada mudamos desde o antigo Império Sassânida, que tinha por base afirmar que o poder e a religião eram dois pilares que se apoiavam mutuamente. Dizemos que ocupamos nosso espaço democrático de discussão, mas parece que sentimos muita falta de uma política teocrática. O atual crescimento do seguimento mais religioso em nosso Congresso Nacional e no poder público federal é prova cabal de que religião e política se entrelaçam a tal ponto de se confundirem e ficamos muito confusos ao tentar perceber quais são os interesses de um e do outro.

Lembro-me que na campanha presidencial, nosso Presidente legitimamente eleito e que se auto intitulava defensor da moral, dos bons costumes e um baluarte da moralidade pública gostava muito de citar o Evangelho de João. A questão da verdade sempre esteve em suas falas e isso me lembra a citação do Evangelho de João, 8, 32, que diz "A verdade vos tornará livres", em franca sintonia com o "conhecereis a verdade e ela vos libertará", que está em outra tradução. Para Platão, a verdade é uma, não se corrompe, não se muda; aquilo que é verdadeiro será para sempre. A verdade grega é aletheia, a aquilo que se desvela, pois está velado. Nos últimos dias assistimos estarrecidos a demissão do Ministro Gustavo Bebianno, chamado publicamente de mentiroso pelo filho vereador do Presidente, por afirmar ter conversado com o presidente em seu internamento hospitalar. O insulto humilhante ganhou rapidamente espaço nas redes sociais e foi confirmado pelo presidente.

Demitido na última segunda feira, Bebianno deixa vazar os áudios em que conversou com o Presidente, amplamente divulgados pela imprensa brasileira. Opositores do Planalto viram na crise gerada pela demissão/constrangimento o desvelar do verdadeiro caráter do Presidente, partidários diminuíram os impactos e tentaram justificar com outra forma de verdade: a forma veritas. Para a verdade romana, A Verdade está no dito, no narrado, no explicitado. Saímos de um padrão de verdade absoluta, para a verdade relativa. Mas se falamos de religião e política, a verdade deveria ser emunah, a verdade Bíblica, a verdade na promessa. Nesse contexto o prometido pela palavra deve ser cumprido. Nesse sentido, como fica o aumento da idade para aposentadoria aos 65 anos para homens e 62 para mulheres quando em sua campanha nosso Presidente disse que tal aumento é desumano? Afinal, quando é que a moral Bíblica de fato vale para nosso novo governo?

 
 
 
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